Reposicionamento da LVMH nas Américas em 2025
O setor global de luxo atravessa um momento de instabilidade: os efeitos da euforia pós-pandemia começam a ceder, o crescimento da China desacelera e tensões comerciais aumentam a imprevisibilidade do cenário. Diante desse contexto, a LVMH decide dobrar sua aposta em outro território que oferece maior estabilidade relativa: as Américas.
Em 2025, o grupo instituiu uma divisão dedicada exclusivamente à região, não apenas como resposta imediata à desaceleração global, mas como um movimento estratégico para preservar margens, adaptar operações e preparar o terreno para um novo ciclo de crescimento. Essa reorientação sinaliza uma leitura das forças geopolíticas e um compromisso em proteger o core business enquanto reposiciona sua atuação.
Mudança de liderança estratégica
Michael Burke – executivo veterano da LVMH – foi nomeado presidente da nova divisão das Américas no início de 2025.
Seu histórico inclui década à frente da Louis Vuitton e a condução da aquisição da Tiffany & Co. (US$ 15,8 bi).
A missão de Burke é estabilizar o mercado americano (25% da receita LVMH em 2024, ~€21,5 bi) e aproveitar as oportunidades na América Latina.
A integração da Tiffany sob sua gestão tem mostrado resultados: no 1º tri de 2025 as vendas nos EUA cresceram +8% (reforçando o apelo da marca no país). Esse exemplo sinaliza como o grupo busca replicar sucessos locais em toda a região.
Bet nas Américas – escala e foco local
As Américas representam 25% da receita global do grupo (vs. 28% Ásia, 25% Europa), mas têm importância 100% estratégica, dada a estagnação chinesa. Os EUA seguem como “refúgio de estabilidade” para o grupo.
Para explorar o potencial regional, a LVMH planeja abrir 15 novas lojas de ponta até 2026, focando em cidades-chave (Miami, Las Vegas) e mercados emergentes (México, Brasil).
Hoje, LVMH já possui ampla presença local: cerca de 1.193 lojas nos EUA e ~45 mil funcionários na região norte-americana. Essa infraestrutura apoia a estratégia de crescimento territorial.
América Latina – protagonismo do Brasil
Relatórios apontam a América Latina, liderada por Brasil e México, como nova fronteira de expansão do luxo. A região tem tendência de crescimento no curto-prazo, mesmo num cenário global incerto.
No Brasil, os números confirmam a força: o país responde por 25% do mercado latino-americano de luxo (considerando também o México), e espera-se crescimento de +7% em 2025. Essa relevância explica o destaque dado pela LVMH à estratégia regional.
Fatores domésticos impulsionam o setor: recuperação de renda das classes altas e maior apetite por exclusividade e propósito nas marcas. Por exemplo, 33% dos consumidores de alta renda no Brasil valorizam empresas com propósito claro, indicando a importância de posicionamento autêntico.
Estratégia diante do desaquecimento nos EUA
Com o consumo de luxo nos EUA esfriando, a LVMH adotou medidas defensivas e adaptativas. Relatórios como o Morgan Stanley alertam para demanda mais fraca dos consumidores americanos em 2025.
A resposta da LVMH inclui produção local (3 ateliês nos EUA já entregam ~1/3 do valor das bolsas Vuitton vendidas lá) para driblar tarifas, e ajustes de preço seletivos (ex.: bolsa Neverfull +US$100) para manter margens.
Internamente, a Tiffany atua como balança: forte no mercado americano, ela ajuda a equilibrar a volatilidade asiática. De um lado, LVMH reforça a estabilidade dos EUA; de outro, empurra investimentos para a América Latina, diversificando assim seus riscos.
Dados recentes de consumo de luxo nas Américas
- Segundo o estudo Bain/Altagamma, o gasto global em bens de luxo foi de €1,48 trilhão em 2024 (queda marginal de ~1% ante 2023). Nas Américas houve sinais de recuperação gradual: por exemplo, o quarto trimestre de 2024 trouxe aceleração de vendas na região.
- A LVMH reportou crescimento orgânico em 2024, especialmente na Europa e EUA (Nos EUA, o desempenho se manteve sólido, mesmo após ajustes cambiais e incertezas globais.)
- Projeções 2025 são otimistas: espera-se leve expansão mundial e ganhos regionais. O Brasil lidera com +7% previsto. Esses dados indicam que, apesar dos ventos contrários, há um novo ciclo de crescimento gestando-se nas Américas.
Lições para empresas e marcas
A trajetória da LVMH nas Américas mostra que visão estratégica e agilidade são essenciais em mercados voláteis. A companhia reforça sua aposta no “porto seguro” americano enquanto aponta para o dinamismo latino, criando um modelo de crescimento ajustado à nova realidade global.
Diversificação geográfica: O reposicionamento da LVMH ilustra como espalhar operações por mercados distintos pode mitigar choques. A própria LVMH diz que essa mudança não é só de receita, mas “diversificação de risco”. Atuar em vários continentes ajuda a equilibrar instabilidades (econômicas ou políticas).
Portfólio flexível: ter marcas em várias faixas de preço (do ultra-luxo ao acessível) sustenta a demanda mesmo em tempos de incerteza. Esse mix de 75 marcas permite à LVMH captar tanto consumidores de alta renda quanto de segmentos intermediários, tornando a empresa mais resiliente.
Reinvenção de posicionamento e propósito: com a desaceleração de alguns setores, marcas precisam repensar identidade e experiência. Analistas apontam que recuperar criatividade e reforçar o propósito são cruciais. Por exemplo, brasileiros valorizam propósito claro e experiências exclusivas. Invista em inovação (tecnologia, omnicanal, eventos) como diferencial competitivo.
Reposicionar é também reencontrar o próprio norte.
Na dança silenciosa dos mercados globais, quem permanece estático perde o compasso. A LVMH leu os sinais, mudou o rumo — e fincou presença onde há fôlego, desejo e futuro.
E a sua marca? Está pronta para atravessar esse novo mapa com elegância, inteligência e intenção?
Converse conosco. Seu reposicionamento começa com uma boa pergunta. E um movimento preciso.
Tamara Lorenzoni é consultora de negócios especialista no mercado de luxo e alto padrão.
Com formação internacional pela Domus Academy (Milão) e Regent’s University (Londres), atua com pesquisas de mercado, planejamento estratégico e gestão de marcas. No setor de hospitalidade, apoia hotéis, resorts e propriedades exclusivas no desenvolvimento de experiências diferenciadas, reposicionamento de marca e estratégias de encantamento para o público de alta renda.
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